Only Time!

28 fevereiro 2007

Assim é a Vida


A vida às vezes é um poço, mas seco. A gente quer água, um balde ou até meio, que seja. Mas por mais que se desça até o fundo da alma, o poço está seco (e no entanto às vezes ele parece transbordar; e nem é mais poço, é quase um rio inteiro passando dentro da gente). O que provoca essa seca? E que água é essa dentro da vida? E o que causa essa sede que a gente sente lá de dentro do coração? Não sei. Não sei. Não sei. E quando a gente chora é o vazio que transborda e desexplica a vida nas lágrimas molhadas. Não faz sentido.
As coisas estão no lugar e vão bem. Mas de vez em quando essa saudade das possibilidades todas que a gente tinha e não viveu. Ou essa saudade de alguém que sumiu e a gente não sabe mais alcançar. Ou esse despertar de sentimentos que a gente mesmo enterrou. E uma angústia, uma vontade, uma espera, um furacão que deixa tudo intacto ao redor, mas quebra a gente por dentro, em mil pedaços pequenos. Tão pequenos e tão no fundo da gente que é difícil juntar e se reconstruir sem que isso transpareça no olhar e no sorriso forçado.
O mundo não é perfeito, embora seja bonito e repleto de horizontes. Mas às vezes a gente não cabe no mundo e ele não cabe na gente. Dá vontade de fugir pra qualquer lugar, mesmo sabendo que não adianta, porque o mundo é o mundo em qualquer lugar. E então dá vontade de mudar o mundo, mas a gente não consegue nem tentar, porque não sabe por onde começar. As pessoas são injustas, o destino é injusto, até a natureza é injusta às vezes. A gente mesmo é injusto com o mundo quando pensa isso tudo dele. E as coisas ficam sempre como estão: bonitas e repletas de horizontes.
Pensamentos, pensamentos, pensamentos. E um aperto no coração. A sede. O furacão. Os pedaços. A gente quer chover. Mas alguém sumiu, e o mundo está todo errado, e o poço está seco, e as pessoas são injustas, e há possibilidades que não foram vividas, e os sentimentos enterrados despertam, e as coisas ficam sempre como estão: bonitas e repletas de horizontes. E em algum horizonte, às vezes, sem explicação, as nuvens quedam em chuva para encher o poço e transbordar em rio essa água de ser feliz. Assim é a vida.

Perdão

Li o texto abaixo hoje no site http://www.releituras.com.br/ e me surpreendi com a jovem escritora pernambucana que apresento a vocês. De vez em quando é bom ler alguma coisa que deixa a gente sem vontade de escrever, por pura satisfação com a oferta em palavras da outra pessoa.



Perdão
(Izabel Santa Cruz Fontes)

Hoje sonhei que te perdoava. Estamos sentados frente a frente, desconfortáveis, com olhares perdidos. Eu podia sentir o teu desespero mudo no ar, tocar nele, moldá-lo à minha maneira, fazer dele capricho meu. Você fingia tomar seu café e olhar pela janela. O café estava tão quente que era quase uma presença humana. Éramos, então, quatro: eu, você, o café e seu desespero, percebi nisso metáfora indizível. Mesmo no fim, mesmo em sonhos, nunca sozinhos.Sádica, eu folheava o jornal displicentemente e jogava os cadernos pelo chão, bagunçando tudo de propósito, como que para te irritar pela última vez. Você, numa coragem súbita, quebra o silêncio. Apenas ergo os olhos, fitando-te friamente e volto a uma notícia tediosa, no caderno de política. Falava alguma coisa sobre um tratado político no Sul da África... você fala, fala, fala. Fala coisas que eu não entendo, ou não lembro. Diz que se arrepende, pede desculpas, promete o céu e felicidade eterna. Continuo a ler, termino mais uma página e a jogo no chão, quase com desprezo. Sentindo o corpo inteiro estremecer, numa raiva contida, você se limita a olhar com o canto do olho a mais uma provocação e ignora, permitindo-se um resto de orgulho.Ao perceber que ainda somos nós — você, puro orgulho, eu, pura implicância — dou um meio sorriso, sabendo que não tenho o direito de me sentir feliz. Você, de repente, percebe tudo e dá um sorriso largo, criança em dia de natal. Surpresa, apenas arregalo os olhos, você ri do meu espanto. Mais alto. Gargalha. Contagiada, vou sentindo minha boca se abrir, tímida, até se escancarar. Sentimos o corpo tremer e rimos, em uma crise guardada, sem explicação, sem motivo.Passamos tempo incontável assim, a rir sem motivos e, de repente, paramos. Pela primeira vez, nos olhamos de verdade, com olhos de quem ri, inocentes e carinhosos. Finalmente, nós dois entendemos e, calados, aceitamos nosso destino: orgulho e implicância. Nos perdoamos.

23 fevereiro 2007

Eu nem falo palavrão, mas...



Eu nem falo palavrão, de verdade, mas esse texto merece destaque!!! Com o perdão de várias palavras, aí vai:


"O direito ao 'Foda-se!'"
por Pedro Ivo Resende*

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua.
"Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?
No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!". O "Não, não e não''! e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade ''Não, absolutamente não!'' o substituem. O "Nem fodendo" é irretorquível e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo "Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.
Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente às situações em que nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!". O "porranenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepone", "repone" e, mais recentemente, o "prepone" - presidente de porra nenhuma.
Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu!", ou seu correlato "Puta-que-o-pariu!", falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba... Diante de uma notícia irritante qualquer um "puta-que-o-pariu!" dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.
E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cu!"? E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no olho do seu cu!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai tomar no olho do seu cu!". Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: "Fodeu de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? "Fodeu de vez!".
Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do ''foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. "Não quer sair comigo? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!".
O direito ao ''foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade e FODA-SE.

* Este texto é atribuido a Millôr Fernandes por várias fontes informais mas não sei nem onde, nem quando foi publicado. Já ouvi dizer que o autor de "O Direito Ao 'Foda-Se!'" não é o Millôr Fernandes, nem o Arnaldo Jabor, nem o Veríssimo (porque já recebi esse mesmo texto creditado a eles...), e sim um cara daqui do Rio chamado Pedro Ivo Resende, que tinha uma coluna chamada "Loser", publicada no finado E-Fanzine e no Cucaracha Zine. Quem tiver uma informação precisa, pode me avisar. :)